
JOÃO PAULO II – UM LÍDER CARISMÁTICO
Durante o seu pontificado fez imperar todo o seu carisma, integridade e devoção em busca de um mundo melhor. Nunca nenhum outro Papa conseguiu ter um relacionamento tão próximo dos jovens, contactar com tantas Nações, etnias e religiões durante o seu papado. Talvez por estas razões, fosse respeitado por líderes de diferentes ideologias políticas e confissões religiosas. Conseguiu, ainda, abrir um canal diplomático com os Estados Unidos da América, algo que não acontecia há muitos anos. As relações diplomáticas com Israel e os países árabes são outro marco positivo.
Em Outubro de 1986, João Paulo II organizou a Primeira Jornada Mundial de Oração pela Paz Mundial, em Assis. Pela primeira vez na história do papado, representantes das religiões cristãs e não cristãs juntaram-se numa só voz.
Outro facto histórico, foi o reatar de relações com a Igreja Anglicana. Há quatro séculos, desde o reinado de Henrique VIII, que católicos e anglicanos estavam de costas voltadas. A faceta política de João Paulo II ficou demonstrada ao longo dos anos, com o encontro e o envolvimento nos mais importantes acontecimentos do século XX.
Foi fundamental na queda do comunismo na Europa do Leste, ou não fosse polaco e natural de um dos principais bastiões do comunismo. É celebre a sua frase, aquando da sua visita à sua terra natal - “Não tenhais medo”.
Um conflito onde interveio, mas que não viu um final feliz, foi o do Médio Oriente. Conviveu com diversos presidentes, primeiros-ministros e ministros de Israel, sempre com uma mensagem de paz no seu horizonte.
A Doutrina Social (DSI), conjunto de ensinamentos contidos em diversas encíclicas e pronunciamentos papais, para orientar a actuação dos católicos na sociedade moderna, originou-se na Rerum Novarum de Leão XIII, de 1891 e foi, ao longo do século 20, passando por um processo de actualização e comentário, do qual participaram todos os seus sucessores, com excepção de João Paulo I, devido ao seu curtíssimo pontificado. Ao longo de seus 26 anos de papado, Karol Josef Wojtyla manteve e aprimorou a preocupação da Igreja com as relações económicas e sociais, apontando, em três encíclicas, os caminhos que os cristãos devem seguir para harmonizar suas actividades cada vez mais complexas no mundo da economia com os princípios morais eternos contidos nos Santos Evangelhos e nas cartas e actos escritos pelos primeiros apóstolos. A DSI não pertence ao âmbito das ideologias, mas ao da teologia, especialmente ao da teologia moral.
Assim, as três encíclicas ''sociais'' do recém-falecido Pontífice - a Laborem Exercens (LE), de 1981, a Sollicitudo Rei Socialis (SRS), de 1988 e a Centesimus Annus (CA), de 1991 - são exemplos do carácter de teologia e antropologia moral dos DSI.
Na LE, o papa ressalta a importância da co-propriedade dos meios de produção, com ênfase na empresa privada e na economia de mercado; realça também a dignidade da pessoa humana como marco para o estabelecimento de salários justos, mas sem qualquer alusão opinativa sobre critérios de política económica para atingir tal objectivo; por fim, ao afirmar que a temperatio (ordenação social) deve subordinar-se à iniciativa das pessoas (grifo nosso), rejeita claramente um sistema de planificação central de viés socialista.
Escrita em 1988, a SRS parece inovar ao agregar o conceito de direito à livre iniciativa económica, mas, na verdade, João Paulo II apenas retomava uma tradição de Leão XIII, que defendeu os direitos de propriedade; de Pio XI, que insistiu no Princípio da Subsidiariedade; de Pio XII, que observou que a economia é o fruto da livre iniciativa dos indivíduos.
Na mais importante, a Centesimus Annus, de 1991, o papa elabora uma nova interpretação da iniciativa, da capacidade empresarial, do lucro e do sistema capitalista, fundamentando-a nos princípios, sempre caros ao Cristianismo, do destino universal dos bens e da propriedade privada individual. Ao analisar esta última, o papa salienta a importância de uma forma de propriedade que transcende a definição tradicional de capital, que é a propriedade do conhecimento, da técnica e do saber, que vem a ser a incorporação da Teoria Económica do Capital Humano. A raiz ética e cultural da economia empresarial moderna é a liberdade integral da pessoa humana, no centro da qual está sua dimensão religiosa, assentada em um sólido contexto político-jurídico, que seja capaz de prevenir danos e degenerações e de reduzir ao mínimo os efeitos indesejados.
Encerramos esta pequena homenagem ao grande Papa com uma frase lapidar nas suas intervenções:
''A actividade económica, em particular a da economia de mercado, não pode realizar-se num vazio institucional, jurídico e político. Pelo contrário, supõe segurança no referente às garantias da liberdade individual e da propriedade, além de uma moeda estável e serviços públicos eficientes. A principal tarefa do Estado é a de garantir esta segurança, de modo que quem trabalha e produz possa gozar dos frutos do trabalho sinta-se estimulado a cumpri-lo com eficiência e honestidade. A falta de segurança, acompanhada pela corrupção dos poderes públicos, é um dos obstáculos principais ao desenvolvimento e à ordem económica''. @Maria Ramos



